Tradicionalmente, a Suíça mantém relações estreitas com o Liechtenstein, seu minúsculo vizinho oriental. As relações são tão estreitas que muitos acreditam que a Confederação defenderia o principado no caso de um ataque militar.
Muitas pessoas na Suíça e em Liechtenstein acreditam que o minúsculo principado está sob a proteção militar da Confederação. Mas essa suposição é falsa. “A Suíça não defenderia Liechtenstein”, explica Christian Frommelt, do Instituto Liechtenstein, que resolveu essa questão num estudoLink externo encomendado pelo governo de Liechtenstein.
Durante um exercício de tiro do exército suíço em dezembro de 1985, uma floresta no município de Balzers, no Principado de Liechtenstein, pegou fogo acidentalmente.
Keystone / Arno Balzarini
Ao contrário da opinião geral, a Suíça não é o poder protetor de Liechtenstein, nem oferece nenhuma garantia legal de segurança. Isso não seria compatível com sua neutralidade, uma vez que constituiria uma espécie de aliança militar.
“Legalmente, o exército suíço não é responsável pela proteção do Principado de Liechtenstein”, confirma o porta-voz do exército Lorenz Frischknecht. “Mas, se Liechtenstein se encontrasse numa situação de emergência, a Suíça estaria disposta a oferecer seu apoio como uma assistência entre vizinhos, se seu país vizinho solicitasse.”
Tanto na Suíça como em Liechtenstein, especula-se que um ataque militar nunca afetaria apenas o principado, mas também a Suíça e outros países europeus. Nesse cenário, a Suíça incluiria Liechtenstein em seu destacamento defensivo e confiaria na OTAN ou na UE para intervir a seu favor.
A Suíça não teria impedido a anexação de Liechtenstein por Hitler
O caso defensivo ocorreu concretamente durante a Segunda Guerra Mundial. De fato, a Suíça integrou Liechtenstein em sua estratégia de abastecimento econômico e militar, como se fosse um cantão, e assim assumiu, de certa forma, o papel de protetor econômico, conquistando a profunda simpatia do povo de Liechtenstein.
Mas, para o governo da Confederação, estava claro que o exército suíço só defenderia Liechtenstein no caso de um ataque simultâneo aos dois países. Se a Alemanha de Hitler tivesse decretado e implementado a “anexação” de Liechtenstein ao Terceiro Reich sem atacar a Suíça, o exército confederado teria ficado parado. No final, os dois países foram poupados de um ataque.
Como surgiu esse mal-entendido?
De acordo com Frommelt, a impressão geral em Liechtenstein de que a Suíça defenderia seu pequeno vizinho no caso de um ataque é reflexo da estreita cooperação e da abertura das fronteiras entre os dois países.
Christian Frommelt, Instituto Liechtenstein.
Liechtenstein-Institut
Mas, segundo Frommelt, a integração quase total de Liechtenstein no sistema de abastecimento econômico da Suíça – que ocorreu graças ao tratado de união aduaneira – não existiu apenas durante a Segunda Guerra Mundial. ‘Posteriormente, no campo da proteção civil, a Confederação também tratou Liechtenstein como se fosse mais um cantão.” Um exemplo que ilustra isso são os exercícios de proteção contra desastres realizados em Liechtenstein com a participação do exército suíço.
“Portanto, a percepção da Suíça como ‘poder protetor’ de Liechtenstein em caso de guerra deve-se principalmente à falta de diferenciação entre a dimensão civil de um conflito armado e seu alcance militar”, conclui Frommelt.
Adaptação: Clarice Dominguez (Edição: Fernando Hirschy)
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