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COP 15 da Biodiversidade: o acordo irá nos ajudar a viver em harmonia com a natureza?

Cornelia Krug

A pesquisadora Cornelia Krug considera importante o acordo global de proteger 30% do planeta. Mas o objetivo só pode ser alcançado se superar os desafios locais através da cooperação.

Após quatro anos de negociações, representantes de mais de 190 nações na 15ª Convenção sobre Diversidade Biológica (COP15) adotaram o Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal que inclui várias metas importantes que enquadram as ações a serem tomadas agora para deter a perda desenfreada de biodiversidade. Durante a próxima década, o acordo visa transformar a relação do homem e da sociedade com a natureza e, até 2050, atingir o objetivo permitir a humanidade de “viver em harmonia com a natureza”.

Quem é

Cornelia Krug coordena o programa de pesquisa ‘Mudança Global e Biodiversidade’ na Universidade de Zurique e bioDISCOVERY. Seu trabalho avalia o impacto do manejo da terra e a resposta dos ecossistemas às mudanças ambientais e como esta afeta o bem-estar humano. Krug viveu na Namíbia, África do Sul e França antes de se estabelecer na Suíça.

O caminho para a realização desta visão provavelmente será sinuoso e acidentado, já que o cumprimento das metas de 2030 exigirá esforços para a implementação em nível nacional. As metas anteriores para deter a perda da biodiversidade até 2020 (Metas de AichiLink externo) falharam quase todas, assim como as Metas de Biodiversidade 2010Link externo, estabelecida em 2002. Será que o acordo de Montreal finalmente conseguirá reverter a curva de perda de biodiversidade, o objetivo declarado do acordo?

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COP15: cúpula do clima para deter a extinção em massa

Este conteúdo foi publicado em A 15ª Conferência das Partes (COP15) da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB), conhecida como Cúpula da Biodiversidade, visa alcançar um acordo histórico para evitar a extinção em massa da fauna e da flora.

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Globalmente, a biodiversidade diminui a um ritmo sem precedentesLink externo, comparável às extinções em massa já ocorridas no planeta. A atividade humana deliberadamente provoca mudanças irreversíveis no sistema terrestre, ao mesmo tempo em que ameaça o bem-estar da própria humanidade. Na Suíça, mais de 40% das espécies estão ameaçadas e muitas já se encontram extintas localmente. Mais da metade dos habitats naturais do país estão em risco e agora há muitos poucos ecossistemas como prados ou pântanos.

30% não é suficiente

Um dos principais objetivos debatidos na COP15 em Montreal é proteger 30% das áreas terrestres, costeiras, mares e águas interiores até 2030. É frequentemente comparado ao objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5° Celsius em relação à era pré-industrial, estabelecido pela Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Ao contrário da meta de 1,5 graus, o objetivo de proteger 30% do planeta ainda pode ser alcançado. Uma outra meta ’30×30′ visa restaurar 30% dos ecossistemas degradados até 2030.

Proteger 30% do planeta requer uma contribuição desproporcional dos países em desenvolvimento, onde a maioria das áreas naturais ainda existe. Na Suíça, apenas 13% da sua superfície está sob proteção – com uma proposta de aumentar essa área para 17% até 2030. O país ainda está longe dos 30% e de atingir os objetivos da Coligação de Alta Ambição para a Natureza e as PessoasLink externo, da qual é membro.

Entretanto, proteger 30% da Terra não é suficiente para garantir também a proteção da biodiversidade, pois as áreas protegidas devem estar bem conectadas para permitir a movimentação de espécies e populações, também no contexto da mudança climática.

Contra a perda da biodiversidade

A proteção da biodiversidade não deve ser promovida apenas nos 30% da superfície do planeta protegidos pelo acordo. O que acontece nos 70% restantes é igualmente importante. Os principais motores da perda de biodiversidade na Suíça são a conversão e a fragmentação dos ecossistemas devido à agricultura e urbanização. Habitats naturais, especialmente lagos e rios, estão sendo degradados por derramamentos de pesticidas, fertilizantes, águas residuais industriais e outros poluentes. Muitas das metas de Montreal são projetadas para reduzir o impacto desses fatores (da poluição às espécies invasivas) e para incentivar o desenvolvimento e práticas agrícolas favoráveis à biodiversidade. Isto poderia se traduzir na criação de áreas verdes nas cidades, ou corredores para ecossistemas naturais em áreas agrícolas.

O sucesso depende muito das prioridades nacionais. A segurança energética ou a segurança alimentar são frequentemente citadas como razões pelas quais uma conversão para práticas mais favoráveis à biodiversidade não é realizada ou porque os subsídios prejudiciais à biodiversidade não são removidos.

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Embora a pegada ecológica geral da Suíça tenha diminuído, seu impacto negativo na biodiversidade cresce há duas décadas, especialmente fora das suas fronteiras. O consumo e produção prejudicam a biodiversidade em outros lugares, por exemplo, na Indonésia ou Brasil, onde as plantações de palma e soja ocupam áreas que eram antes de florestas tropicais. É preciso analisar seu impacto da cadeia de abastecimento sobre a biodiversidade e avaliar seus custos.

Floresta e área descampada
A rodovia BR-163 se estende entre o Parque Nacional de Tapajós, à esquerda, e um campo de soja. Foto tirada em 2019 em Belterra, Pará. Copyright 2019 The Associated Press. All Rights Reserved.

Repensar a conservação

Priorizar as metas 30×30, em suma, não será suficiente para atingir o ambicioso objetivo de reverter a perda de biodiversidade. Será necessário reduzir os fatores que causam o declínio e introduzir várias medidas, incluindo o uso sustentável dos recursos e a concessão às comunidades indígenas e locais do direito de explorar a terra que habitam.

Viver em harmonia com a natureza significa repensar a relação que o ser humano tem com a natureza. Devemos reconhecer que somos parte da dela e que nossa própria existência depende da sua preservação. Nosso sistema econômico está no centro de nossos problemas. Uma solução mais holística é necessária.

O Acordo de Biodiversidade é um ponto de partida para trabalhar e ser melhorado nas próximas décadas. A implementação do acordo requer uma abordagem de toda a sociedade, tornando o setor privado, o setor financeiro, a sociedade civil e os atores de todos os setores da sociedade parte da solução.

Sua implementação também requer uma cooperação que transcenda as fronteiras nacionais. As chaves do sucesso são a capacitação, a partilha de benefícios e a alocação de recursos financeiros nos países em desenvolvimento para equilibrar os custos de proteção e reduzir os danos à natureza. Finalmente, o papel que as comunidades indígenas e locais desempenham na implementação dessas medidas deve ser reconhecido.

Adaptação: Alexander Thoele

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