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Refugiados sem banco, mas com carteira digital

Tendas de refugiados
Crianças venezuelanas passam por tendas no acampamento do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) em Maicao, La Guajira, Colômbia, no sábado, 20 de abril de 2019. 2019 Bloomberg Finance Lp

ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, em um projeto-piloto na Ucrânia, demonstrou como os pagamentos de auxílio podem ser realizados de forma mais rápida e eficiente com o uso de tecnologias modernas. Um novo centro está sendo criado em Genebra a fim de fomentar tais inovações.

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Em meados de 2024, as Nações Unidas contabilizavam mais de 122 milhões de pessoasLink externo deslocadas em todo o mundo. Crises globais criam desafios cada vez mais complexos, o que exigem respostas rápidas e flexíveis em longas distâncias, especialmente quando se trata de transferências bancárias.

“Transações através de fronteiras nacionais frequentemente demoram muito tempo e implicam custos elevados. Além disso, falta infraestrutura necessária em muitas regiões em crise”, explica Stefan Bumbacher, responsável pelo programa de Assistência em Dinheiro e Vouchers na Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação (DEZA, na sigla em alemão).

Na cooperação internacional, onde fluem anualmente milhares de milhões de dólares em pagamentos, processos ineficientes podem desacelerar todo o sistema. E a questão mais crítica sempre é: como garantir que o dinheiro chegue, de fato, a quem tem direito a ele?

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Sem conta bancária, ao redor do mundo

A tecnologia blockchain oferece soluções: ela permite transações transparentes e seguras, administradas de forma descentralizada. Todos os pagamentos são registrados em um sistema imutável, que não pode ser manipulado ou interrompido.

Como uma solução baseada na tecnologia blockchain pode funcionar na prática, mostra um projeto-piloto do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) na Ucrânia. Para realizar pagamentos a pessoas deslocadas e refugiadas, a organização trabalhou em parceria com a Stellar Development Foundation, especializada na área. O projeto-pilotoLink externo foi lançado em dezembro de 2022 e permite transferências de dinheiro de maneira independente de localização e em tempo real.

O processo é simples para a pessoa em questão: após o registro no ACNUR, ela recebe um SMS com instruções para baixar um aplicativo de carteira digital (wallet), para receber e enviar dinheiro, em seu smartphone. Poucos minutos após a verificação, a pessoa recebe os pagamentos de auxílio diretamente nesse aplicativo. Depois, basta ir à agência MoneyGram mais próxima e converter o saldo para a moeda de sua escolha – sem necessidade de possuir uma conta bancária para ter acesso ao dinheiro. Somente na Ucrânia, existem mais de 4.500 agências MoneyGram habilitadas para essas transações.

Rápido, seguro e flexível

Em apenas um ano, a ONU distribuiu mais de 1,1 milhão de dólares para 1.500 deslocados na Ucrânia. Além da rapidez, a flexibilidade é outro ponto forte dessa solução, segundo Malik El Bay, do think tank suíço Dezentrum. Uma pessoa refugiada pode guardar o dinheiro com segurança em sua carteira digital ou sacá-lo na moeda de sua preferência – independentemente de onde esteja ou mesmo na ausência de um sistema bancário funcional.

Se a pessoa refugiada, por exemplo, escapar para a Polônia, ela pode levar o dinheiro facilmente no smartphone, atravessar a fronteira e sacá-lo em uma agência em Cracóvia.

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Pessoas passam pelo local de um ataque a bomba russo em um prédio residencial em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, em 5 de maio de 2024. KEYSTONE

Stablecoins como proteção contra flutuações cambiais

Mas essa solução não expõe pessoas vulneráveis às fortes flutuações de preço das criptomoedas? Para evitar isso, o projeto conta com as chamadas stablecoins – criptomoedas cujo valor é atrelado a moedas tradicionais, como o dólar americano.

Na Ucrânia, foi usado o USD Coin (USDC) da Circle Internet FinancialLink externo, um stablecoin totalmente lastreado em dinheiro, títulos governamentais de curto prazo e outros ativos líquidos.

Um novo centro de competência em Genebra

Após o bem-sucedido projeto-piloto na Ucrânia, o ACNUR, parceiros das Nações Unidas e o governo suíço lançaram, em 2022, o chamado Digital Hub of Treasury Solutions (DHoTS), que tem como objetivo promover a inclusão financeira e melhorar a vida de pessoas necessitadas ao redor do mundo. Um papel central nesse esforço é desempenhado pelo UN-Center of Excellence (CoE), que está sendo criado em Genebra. A Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação (DEZA) investirá um milhão de francosLink externo na construção do centro até o início de 2026.

O CoE visa facilitar o acesso do sistema das Nações Unidas e de seus parceiros aos ecossistemas e mercados financeiros globais. “Além de implementar novas tecnologias, o DHoTS também pretende fomentar a cooperação multilateral para tornar a cooperação para o desenvolvimento mais eficiente e segura”, afirma Alexander Widmer, responsável pelo projeto na DEZA.

Potencial de economia de até 60 milhões de dólares

O ACNUR efetua anualmente cerca de dois milhões de pagamentos, no valor de mais de seis bilhões de dólares. De acordo com Stefan Bumbacher, até 60 milhões de dólares poderiam ser economizados anualmente se os processos fossem padronizados e harmonizados.

Bumbacher explica que 23% da ajuda humanitária global chega diretamente em mãos dos beneficiários sob a forma de pagamentos em dinheiro e vouchers: “Frequentemente, as organizações humanitárias enfrentam a mesma questão: como posso transferir dinheiro de forma eficiente para um determinado país e, em seguida, entregá-lo diretamente aos beneficiários?” Isso também envolve preocupações relacionadas à proteção de dados.

O objetivo da abordagem de Genebra é conectar os pontos de pagamento dos parceiros multilaterais envolvidos em 135 países a 500 provedores de serviços financeiros globais e locais, instituições, mercados e mais de 100 milhões de pessoas deslocadas. “Não faz sentido que cada organização celebre um contrato-quadro individual com um banco local, negocie taxas etc. É importante coordenar todas as organizações, sem retirar delas a liberdade de decidir qual solução adotar”, esclarece Alexander Widmer, representante da DEZA.

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Uma solução entre muitas

Segundo Malik El Bay, que acompanha o projeto como consultor externo, seria equivocado considerar o piloto de blockchain na Ucrânia como uma referência abalizada para o Digital Hub of Treasury Solutions. O DHoTS pode ser dividido, de forma ampla, em duas áreas. “A primeira parte é um projeto clássico de digitalização envolvendo várias agências da ONU, com o objetivo de alcançar ganhos de eficiência”.

A segunda, menor, é o que El Bay chama de “tecnologia de ponta”, como enviar dinheiro diretamente para o celular do destinatário utilizando novas tecnologias, como blockchain. Um papel informativo ao qual a SWI teve acesso menciona, para o futuro, uma solução própria que potencialmente permitiria aos beneficiários utilizarem diretamente seus saldos.

“O principal é que o dinheiro chegue ao destino”

A tecnologia blockchain tem, assim, o potencial de tornar a cooperação internacional mais eficiente, transparente e inclusiva. No entanto, de acordo com os especialistas entrevistados, ela não é uma solução universal. “É preciso analisar cada caso específico e ponderar as alternativas”, salienta Widmer.

Também para Bumbacher, tudo depende do “caso de uso, das condições locais e do objetivo específico do projeto”. El Bay concorda: “Blockchain não é uma solução fixa dentro do DHoTS, mas uma entre muitas. O foco está na digitalização dos fluxos de pagamento”, reforça. “O mais importante é que o dinheiro chegue às pessoas”.

A Suíça desempenha um papel de liderança na promoção de novas tecnologias na cooperação para o desenvolvimento e na ajuda humanitária. Em diversos projetos, a tecnologia blockchain desempenha um papel relevante. No âmbito da Climate Ledger InitiativeLink externo, a Suíça apoia soluções baseadas em blockchain para projetos de proteção climática. Outro esforço notável é a parceria com o Fundo de Capital das Nações UnidasUNCDFLink externo) para reduzir os custos de transação em remessas internacionais, com o intuito de promover a inclusão financeira em países em desenvolvimento e emergentes.

No setor privado, a Suíça também desempenha um papel crucial. Com projetos como o LACChainLink externo no Peru, que testa carteiras digitais para pequenas e médias empresas, e o apoio a soluções de transferências em tempo real na Colômbia, a Suíça impulsiona inovações que promovem estabilidade econômica e inclusão financeira.

Além disso, a Suíça cofinancia iniciativas como o Building BlocksLink externo, do Programa Mundial de Alimentos (WFP), que utiliza blockchain para transferências monetárias. Também apoia startups como a AidonicLink externo, que empregam a tecnologia blockchain para melhorar a transparência e eficiência na ajuda humanitária.

Edição: Balz Rigendinger

Adaptação: Karleno Bocarro

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