Berna vê Brasil na “liga dos atores globais”
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A Suíça pretende ampliar suas relações econômicas com a América Latina, principalmente com os países emergentes do subcontinente, como o Brasil e o México.
É o que indica o Relatório sobre a Política Externa Suíça 2009. Berna considera o Brasil um “global player” e “construtor de pontes entre o Norte e o Sul”.
O comércio entre a Suíça e a América Latina mais do que sextuplicou nas últimas quatro décadas, atingindo um volume de 6 bilhões de dólares em 2008. Este é o principal indicador do crescente peso da região para o país alpino.
“A importância da América Latina para a Suíça continua aumentando”, segundo um relatório publicado pelo governo em Berna na quarta-feira (23/9). Isso devido aos seus crescentes mercados, aos vínculos humanos e culturais e porque “a maioria dos governos dessa região defende as mesmas posições que as nossas”, afirma o documento.
A presença de aproximadamente 50 mil emigrantes suíços na América Latina, bem como as longas relações diplomáticas (desde o século 19) e econômicas são apontadas como outras provas de proximidade.
Segundo a Secretaria Federal de Economia, no final de 2007, empresas suíças empregavam 244.500 pessoas em países latino-americanos, das quais 105.700 no Brasil e 45 mil no México – principais parceiros comerciais da Suíça na região.
Acordos e ajuda
Berna estreitou suas relações com a América Latina e o Caribe nos últimos anos. Prova disso são inúmeros acordos bilaterais. Além disso, nomeou embaixadores residentes para a Bolívia, República Dominicana, Haiti, Paraguai e Uruguai.
A Suíça também presta ajuda econômica e humanitária aos países andinos (Bolívia, Peru, Colômbia), à América Central (Nicarágua, Honduras), a Cuba e ao Haiti, onde se enceta uma cooperação trilateral entre o governo local, Brasil e Suíça.
Em 2008, a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), da qual a Suíça é membro, fechou acordos de livre comércio com o Peru e a Colômbia.
Segundo o relatório, de agosto de 2009 a agosto de 2010, a Suíça vai aproveitar as festividades dos 200 anos de independência da Argentina, do Chile e do México, para fortalecer sua presença nesses países e no Brasil.
Brasil, um “global player”
Na avaliação do governo suíço, “o Brasil, que sobe à liga dos global players, mas também outros países latino-americanos desempenham um papel cada vez mais ativo no cenário político internacional”.
A nova ordem mundial estaria oferecendo novas opções à região. “O Brasil assume cada vez mais a posição de um construtor de pontes entre o Norte e o Sul e desempenha um papel de liderança na integração regional da América Latina”, afirma o documento.
Berna e Brasília assinaram no ano passado um “memorando de entendimento” para criar uma “parceria estratégica” (veja link). “Nos próximos anos, deve ser ampliada a cooperação especialmente nas áreas de desarmamento, segurança e ajuda a países pobres (inicialmente Haiti, depois África).”
Ainda em 2009, Berna quer retomar as negociações sobre o acordo de bitributação, bloqueadas desde 1994. O Parlamento brasileiro nega-se a ratificar acordos de bitributação com 14 países, entre eles com a Suíça.
Na agenda bilateral Suíça-Brasil encontram-se também a ratificação do acordo de cooperação jurídica, assinado em 2004, bem como a conclusão de convênios de intercâmbio científico, tecnológico e de estagiários.
México, parceiro no multilateralismo
O México, segundo principal parceiro comercial da Suíça na América Latina, é o primeiro país da região com o qual Berna, através da EFTA, assinou um acordo de livre comércio, em vigor desde 1° de julho de 2001. Um acordo de cooperação jurídica entre os dois países entrou em vigor em setembro de 2008.
Nos próximos anos, a Suíça pretende intensificar a cooperação na transferência de bens culturais e tecnologia ambiental com o país latino-americano.
“O México é um importante parceiro da Suíça na área multilateral, o que é ilustrado através da cooperação no Conselho de Direitos Humanos da ONU e na governança ambiental internacional. Vale construir sobre essa base no futuro”, conclui o relatório.
Geraldo Hoffmann, swissinfo.ch
Datado de 2 de setembro e publicado na quarta-feira (23), o relatório do governo oferece um panorama da atual política externa suíça, baseada em três eixos: manter boas relações com todos os Estados e regiões, dar respostas a desafios globais, e consolidar o sistema multilateral.
O documento aponta três desafios: o deslocamento global de poder na economia e na política; o aumento das crises e dos riscos sistêmicos de dimensão global (crise financeira, questão da energia, mudança climática); a necessidade de reformar as instituições internacionais e adaptá-las à nova situação mundial.
Apenas cinco das 240 páginas do texto são dedicadas à América Latina e ao Caribe, sendo que o Brasil e o México merecem destaque.
No capítulo sobre as relações da Suíça com a União Europeia, o documento afirma que a política em relação a UE deve ser avaliada periodicamente. “O caminho bilateral não deve levar à uma filiação de fato sem direito a voz”, adverte o texto.
A Suíça não participa da UE, mas mantém uma série de acordos bilaterais com o bloco.
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